O livro “The Company: A Short History of a Revolutionary Idea”, de John Micklethwait e Adrian Wooldridge, demonstra que a “công ty” — como unidade social — foi moldada por milênios de evolução institucional, política e tecnológica. Da gestão rudimentar às multinacionais modernas, a história destas organizações reflete a forma como a humanidade organiza capital, poder e colaboração.
No Vietnã, o modelo de “công ty” moderno floresceu junto com o processo de renovação econômica e integração. Após mais de 30 anos, as empresas vietnamitas evoluíram de uma fase de adaptação para a criação de grandes conglomerados, participando do mercado de capitais e expandindo-se globalmente. Este processo vai muito além de copiar modelos de gestão ocidentais; a interação entre a estrutura corporativa moderna e o papel dos fundadores, das famílias e dos relacionamentos interpessoais está moldando um paradigma de governança distintamente vietnamita.
A Tatler Vietnam conversou com o Dr. Tony Nguyễn, vice-diretor do programa de MBA da RMIT University Vietnam, sobre como o modelo de “công ty” foi adotado e localizado no Vietnã, os desafios das empresas familiares na sucessão de gerações e como essas organizações podem ser moldadas em uma economia cada vez mais digitalizada.
Mais de 30 anos de evolução do modelo de “công ty” vietnamita
“The Company: A Short History of a Revolutionary Idea” aponta que a “công ty” não surgiu naturalmente, sendo produto de mudanças institucionais e jurídicas. Ao olhar para os últimos 30 anos, desde a Lei das Empresas de 1990 e a Lei das Empresas de 1999, como avalia a evolução deste modelo no Vietnã?
Acredito que estas leis não apenas introduziram novas formas de negócio, mas lançaram as bases para um modelo de governança com marcas registradas do Vietnã. A Lei das Empresas de 1990 estabeleceu alicerces como a responsabilidade limitada e a estrutura de capital, embora o Estado ainda mantivesse um controle administrativo significativo.
A Lei das Empresas de 1999 representou uma mudança clara ao promover a liberdade empresarial, alterando a mentalidade estatal de uma lógica de permissão para um mecanismo de registro. O Vietnã desenvolveu, a partir daí, um sistema híbrido: a estrutura da “công ty” opera sob mecanismos de mercado, mas permanece sob forte influência da liderança estatal, dos fundadores e das relações pessoais. É essa capacidade de síntese que permitiu às empresas vietnamitas competirem globalmente.
Como a filosofia ocidental de “công ty” foi assimilada e aplicada pelo empresariado local?
Esse processo ocorreu em três fases: acesso, aplicação e localização. Inicialmente, o pensamento ocidental entrou via empresas de capital estrangeiro e consultores. Na fase de aplicação, as empresas implementaram modelos para captar capital e profissionalizar equipes. Atualmente, estamos na fase de localização, onde líderes confiam mais em adaptar modelos globais às realidades locais, mesclando o rigor internacional com a resiliência e a agilidade da “công ty” vietnamita.

Above Dr. Tony Nguyễn, vice-diretor do programa de MBA, RMIT University Vietnam (Foto: RMIT University Vietnam). A “công ty” no Vietnã é um estudo de caso fascinante de evolução corporativa.
Enquanto a gestão ocidental prioriza processos e regras, no Vietnã, a confiança e as relações interpessoais influenciam as decisões. Como os líderes equilibram isso?
A teoria da gestão é como um mapa, não o território. Modelos ocidentais pressupõem contratos formais e comunicação direta. No Vietnã, estes operam lado a lado com a confiança e a harmonia social. Um contrato define os limites, mas a confiança determina como a “công ty” responde a mudanças inesperadas. Líderes eficazes dominam as regras formais, sem perder o toque humano.
Leia mais: Quando marcas abusam do tom informal, onde está o limite?
Quando o fundador deixa de ser o único centro da “công ty”
Muitas empresas privadas vietnamitas ainda são marcadas pelo fundador ou família. Onde está a fronteira entre as vantagens e os riscos desse modelo na sucessão de gerações?
Empresas dirigidas por fundadores têm vantagem na velocidade de decisão e visão de longo prazo. No entanto, o risco surge quando muito poder e conhecimento se concentram em uma só pessoa. O sucesso na “công ty” familiar depende de como a transição separa os papéis de propriedade, gestão e laços afetivos. O herdeiro pode herdar a propriedade, mas a credibilidade perante uma equipe veterana precisa ser conquistada.
Above A estrutura de cada “công ty” deve evoluir para garantir a sustentabilidade além da geração do fundador.
Quando a estrutura da “công ty” se transforma
Na era digital e com a IA, qual o tamanho ideal para uma empresa vietnamita?
Não existe um tamanho ideal fixo. A linha entre a “công ty” e o mercado é fluida. Tecnologias como IA podem reduzir custos de transação, mas aumentam a necessidade de supervisão de parceiros e proteção de dados. Líderes devem perguntar constantemente: que competências são estratégicas para manter internamente e quais podemos acessar externamente? A escala é uma decisão estratégica sempre em revisão.

Above Dr. Tony Nguyễn, vice-diretor do MBA na RMIT University, destaca como a “công ty” vietnamita adapta a escala à tecnologia (Foto: RMIT University).
Como será a “công ty” vietnamita do futuro com mais IPOs e tecnologia?
A mudança mais crítica será a transição de um modelo centrado no fundador para um centrado em missão e instituição. Isso exige uma governança profissionalizada e uma cultura que sobreviva à troca de comando. A “công ty” do futuro dependerá menos de um indivíduo, mantendo, contudo, o espírito empreendedor como base institucional.
Quando o lucro não é a única métrica da “công ty”
Com o ESG e a transparência, como as empresas podem criar valor social sustentável?
Lucro e valor social não são opostos; o lucro garante a sobrevivência econômica, enquanto a sustentabilidade garante a vantagem competitiva a longo prazo. As empresas vietnamitas que integrarem o ESG ao cerne de sua estratégia terão mais facilidade em atrair capital global, talentos e clientes exigentes, transformando responsabilidade em pilar de crescimento.

Above A adoção de práticas ESG fortalecerá a reputação da “công ty” no mercado internacional.
Três preparativos essenciais para a “công ty” vietnamita
Quais seriam suas três recomendações aos líderes de empresas no Vietnã?
Primeiro, transforme a sucessão em um processo gradual, não em um evento pontual. Segundo, valorize profundamente as relações interpessoais, pois são o alicerce da operação. Terceiro, construa resiliência em vez de tentar prever o futuro; a melhor “công ty” é aquela que consegue reagir bem quando a realidade diverge das previsões.
O Dr. Tony Nguyễn é vice-diretor do programa de MBA na RMIT University Vietnam. Doutor em Administração de Empresas Internacionais pela Texas A&M International University, trabalhou anteriormente na JPMorgan.
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