Cover Marilyn Monroe possuía duas facetas: a da mulher transformada em ícone sexual e a de Marilyn Monroe, um ser humano complexo.

Marilyn Monroe possuía duas facetas: a da mulher transformada em ícone sexual pela indústria do entretenimento e a de Marilyn Monroe, uma mulher que utilizou a era industrial para se libertar.

A segunda faceta, que reflete com maior precisão os esforços de toda a sua vida, permanece frequentemente oculta. Marilyn Monroe continua a ser uma figura cuja complexidade transcende a sua imagem pública.

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Uma mercadoria, uma deusa

No final de 1944, enquanto visitava uma fábrica de munições para uma sessão fotográfica de propaganda, o fotógrafo David Conover conheceu a operária Norma Jeane Mortenson. Apenas um mês depois, Norma deixou o emprego na fábrica para assinar um contrato como modelo fotográfica e, dezoito meses depois, tornou-se atriz sob contrato com a 20th Century-Fox. Deixou o marido, que se opunha inútilmente à sua nova carreira, e adotou o nome artístico Marilyn Monroe, em homenagem ao apelido de solteira da sua mãe. Nos quatro anos iniciais e incertos, Marilyn Monroe alternou entre o trabalho de modelo — incluindo ensaios nus — e a atuação em papéis secundários. Abandonando a sua timidez inicial, Marilyn Monroe mergulhou nas relações sociais enquanto estudava atuação com afinco.

Os estúdios remodelaram Marilyn Monroe — corrigiram os dentes, pintaram o cabelo de loiro e treinaram a sua voz, postura e vestuário. Forjaram narrativas e biografias que o público adorava consumir. Transformaram a operária na “bomba sexual” loira e ingênua vista em Niagara, Os Homens Preferem as Loiras e Como Agarrar um Milionário, três sucessos de bilheteira de 1953. Mesmo após a morte de Norma Jeane em 1962, a indústria continuou a lucrar biliões reproduzindo incessantemente a imagem de Marilyn Monroe por eles criada. Através de obras de pop-art como Marilyn Diptych e Gold Marilyn Monroe, Andy Warhol imortalizou como a indústria transformou um ser humano em mercadoria e ícone sagrado.

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Above A imagem icônica de Marilyn Monroe definida pela indústria do cinema.

Porém, será que Marilyn Monroe era apenas uma vítima ingênua, como rotulada pela indústria e seus críticos? Em My Story, a autobiografia inacabada publicada póstumamente, Marilyn Monroe demonstrava perceber o lado obscuro da indústria, fazendo concessões estratégicas para benefício próprio. Ela escreveu: “Uma atriz não é uma máquina, mas tratam-na como tal, como uma máquina de fazer dinheiro”. Acrescentou: “Hollywood é um lugar onde se paga mil dólares por um beijo, mas apenas cinquenta centavos pela alma”. Num outro trecho: “Nunca enganei ninguém, apenas deixei que se enganassem a si mesmos. Não se preocuparam em saber quem eu era na realidade; inventaram uma personagem. Não discuti. E assim, amaram alguém que não era eu”.

Sobre a sua identidade, afirmava com confiança: “Não quero apenas dinheiro, quero ser extraordinária”.

Com a publicação de Fragments em 2010, composta por poemas, notas e cartas de Marilyn Monroe, o público finalmente compreendeu a sua autenticidade. Seus cadernos estavam repletos de reflexões sobre técnicas de atuação, análises psicológicas e traumas de infância. Ali, escrita por Norma Jeane, revelava-se uma mulher intelectualmente profunda, consciente da sua posição na sociedade pós-guerra e dedicada à sua educação artística.

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Filha da indústria

Embora a luta de Marilyn Monroe pela autonomia seja pouco reconhecida, ela é frequentemente mal interpretada por falta de contexto histórico. Antes da Revolução Industrial, a família era uma unidade produtiva coesa. Com o surgimento das fábricas, os membros da família tornaram-se indivíduos assalariados, vivendo separadamente.

Este cenário criou dois tipos de mulheres: as donas de casa de classe média, que buscavam o conhecimento, e as operárias, que buscavam a independência econômica. Ambas as situações impulsionaram as primeiras ondas do feminismo. Marilyn Monroe, ao integrar a loira glamorosa e a artista independente, incorporou essas correntes históricas, tornando-se uma figura que Marilyn Monroe soube utilizar para alcançar o auge da fama.

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Above A dualidade de Marilyn Monroe como ícone e mulher independente.

O sucesso de Marilyn Monroe derivou da sua capacidade de ser a mulher ideal da era industrial, superando as barreiras impostas pela sociedade através da sua maestria dramática. Essa superação foi forjada na dor vivida por sua mãe, Gladys Pearl Monroe. Editora de cinema em Hollywood, Gladys enfrentou o divórcio, a maternidade solteira e a instabilidade mental, episódios que moldaram a vida de Marilyn Monroe. Marilyn, tendo crescido cercada pela atmosfera cinematográfica, aprendeu a representar as donas de casa ingênuas que os homens da classe média tanto desejavam.

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Above Marilyn Monroe exibia uma inteligência que ia além do papel de loira ingênua.

Em 1954, Marilyn Monroe decidiu abandonar a ilusão hollywoodiana e mudar-se para Nova York. Lá, conectou-se com a intelectualidade, estudou no Actors Studio e fundou a “Marilyn Monroe Productions” para retomar o controlo sobre sua carreira. Por dois anos, ela foi a síntese dos modelos industriais: a intelectual leitora, a mulher economicamente independente e a proprietária que decidia o produto que criava. Foi então que Marilyn Monroe demonstrou todo o seu potencial artístico.

Essa trajetória culminou em Os Desajustados (1961), roteirizado por Arthur Miller, seu então marido. O filme reflete a decadência do sonho americano e a complexidade de Marilyn Monroe. A crítica acredita que o papel de Roslyn, escrito para ela, foi o mais revelador da sua essência, o que contribuiu para o término do seu casamento poucos dias após as filmagens; talvez Marilyn Monroe não quisesse ser aprisionada sequer pela sua própria verdade presente.

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Above Cena icônica do filme Os Desajustados de 1961 com Marilyn Monroe.

Quem era, afinal, Marilyn Monroe: a mulher mais moderna do seu tempo ou uma das desajustadas da era industrial? Apos tentar conciliar esses opostos, Marilyn Monroe posicionou-se no centro e, ao mesmo tempo, na margem da indústria, mantendo uma visão clara sobre o seu lugar no mundo.

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Above A obra Fragments revela o lado literário de Marilyn Monroe.

Após a publicação de Fragments em 2010, o cinema tem explorado a lacuna entre Norma Jeane e Marilyn Monroe. Blonde (2022) foi criticado por retratar Marilyn Monroe como uma vítima passiva, ignorando a sua luta pela autonomia. Love, Marilyn (2012) foi mais aclamado ao permitir que a própria Marilyn Monroe narrasse a sua história através dos seus textos. Ironia trágica: a indústria continua a explorar a imagem de Marilyn Monroe para lucrar, mesmo anos após a sua partida. No final, é a “Marilyn” artificial que permanece entre nós, representando perpetuamente a Norma Jeane que já se foi.

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