Cover Cada áo conta uma história de artesanato e evolução.

O “áo” nos ensina a nos surpreender e a valorizar as peças que vestimos diariamente.

Em 1888, quando Blanche Singer, filha do magnata das máquinas de costura Isaac Singer, casou-se em Paris, o The New York Herald Tribune descreveu as vestimentas dos convidados de uma forma que hoje soaria quase estranha. A noiva usava “peau-de-soie”, um cetim de seda espesso com um brilho suave, avaliado em 30.000 francos; sua mãe, a Duquesa de Camposelice, vestia damasco de seda cinza-pérola; a Princesa Scey-Montbéliard escolheu o rosa claro; a Princesa de Saxe-Coburg-Gotha apareceu em seda azul claro, com rendas, pérolas e penas. A Rainha Isabella usou seda com listras rosa, pérolas e uma capa persa.

O que Sofi Thanhauser nota em “Worn” (lançado em português como uma análise sobre a história das vestimentas e do nosso “áo”) é o que está totalmente ausente nessa crônica: o nome da marca. Se um evento social similar ocorresse hoje, observa ela, termos como “peau-de-soie” provavelmente seriam substituídos por Givenchy ou Dior. Ao mesmo tempo, uma série de palavras que descrevem a estrutura de um “áo” — bainhas, pregas, pences, costuras, caimento — começou a desaparecer da linguagem cotidiana. Espera-se que o consumidor reconheça a grife, mas raramente se espera que ele entenda como aquele vestido foi estruturado.

Esse pequeno detalhe contém uma grande história que Thanhauser segue ao longo de quase 450 páginas. Organizado por materiais — linho, algodão, seda, fibras sintéticas e lã —, o livro parece, à primeira vista, uma história material do nosso “áo” cotidiano. No entanto, o fio condutor é outra questão: que valor o “áo” realmente carrega?

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O poder de saber vestir bem um áo

Se precisássemos encontrar uma figura que compreendeu o poder político da moda cedo e claramente, a obra aponta para Luís XIV.

Quando Luís subiu ao trono em 1643, a Espanha ainda ditava o estilo da aristocracia europeia. O preto, característico da elite espanhola da época, era caríssimo, tingido com madeira importada do México, simbolizando a magnitude do império. A França ainda comprava rendas e espelhos em Veneza, seda em Milão e tapetes de Bruxelas. Luís XIV, juntamente com seu ministro das finanças, Jean-Baptiste Colbert, alterou esse equilíbrio com um projeto estético e econômico: impostos pesados sobre artigos de luxo importados, proibição de rendas, tecidos e adornos estrangeiros, enquanto fomentava os artesãos locais.

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Above O design e a estrutura de cada áo revelam a história da moda.

Colbert também determinou que novos tecidos deveriam aparecer duas vezes ao ano. A partir de 1º de novembro, a corte devia abandonar a seda leve pelo veludo e cetim. O padrão de tecido mudava anualmente, tornando o “áo” da estação anterior facilmente identificável. Em 1668, Luís XIV emitiu decretos exigindo que os cortesãos mantivessem uma aparência atualizada. Algumas estruturas que hoje parecem naturais na moda moderna — estações de coleção, ciclos de inovação e o desejo constante pelo novo — têm, na verdade, uma origem muito específica nas estratégias industriais da corte francesa.

Na época de Luís XIV, a indústria da moda empregava cerca de um terço da força de trabalho de Paris. Colbert comparava a moda para a França às minas do Peru para a Espanha; Lyon, graças a essas políticas, tornou-se o principal centro de seda da Europa. A mídia também foi mobilizada. A publicação Mercure Galant (1672) publicava as novas gravuras de moda; entre 1678 e 1693, a série “Modas da Corte Francesa” reuniu 361 gravuras subsidiadas pela realeza. No século XVIII, publicações e até manequins de cera ou madeira eram enviados por toda a Europa. Esses manequins por vezes gozavam de imunidade diplomática, sendo escoltados pela cavalaria durante guerras.

O “áo” não apenas sinalizava o poder de uma pessoa, ele ajudava a definir quem tinha acesso a esse poder.

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Da artesania à etiqueta no áo

Porém, à medida que o poder da moda se expandia para uma indústria global, a distância entre quem veste o áo e quem o produz aumentava.

Antes da industrialização, Thanhauser recorda que as pessoas dedicavam ao trabalho têxtil tanto tempo quanto ao cultivo de alimentos. O linho era plantado, processado, fiado e tecido perto de casa. Comunidades agrícolas sabiam a origem do seu “áo” porque a matéria-prima crescia ao seu redor. Em um museu em Rhode Island, Thanhauser observou sulcos no chão de madeira ao lado da roca: marcas de uma mulher que caminhou milhares de vezes para fiar. O trabalho era pesado, mas continha um conhecimento que o usuário de um áo hoje raramente possui: saber de qual planta, qual solo e pelas mãos de quem a peça foi criada.

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Above Detalhes artesanais valorizam a produção de um novo áo.

A industrialização tornou o vestuário mais barato e abundante, mas fragmentou as etapas através de várias regiões. O design ocorre em um lugar, a matéria-prima em outro, a tecelagem em um terceiro, a confecção em um quarto país e a venda em um quinto mercado. Nesse sistema, a marca tornou-se a ferramenta mais eficaz para unir tudo em um objeto com identidade clara.

Na alta-costura, o nome da grife contém história, design, técnica e legado. Contudo, a obra levanta uma questão difícil: o que acontece quando o nome na etiqueta se torna o principal vocabulário para entendermos nosso “áo”, enquanto o conhecimento sobre materiais e estrutura desaparece?

O designer Paul Poiret criticava comerciantes americanos por “embalarem mercadorias medíocres sob uma etiqueta prestigiada”. Quase um século depois, Lucinda Chambers, diretora de moda da British Vogue por 25 anos, admitiu que relações publicitárias podem impactar diretamente o conteúdo editorial. O livro usa esses exemplos para mostrar como a marca se tornou uma estrutura de poder central no sistema de vestuário atual.

Dois mundos de vestuário no Vietnã

O Vietnã surge como um caso peculiar, pois Thanhauser vê ali, quase simultaneamente, esses dois mundos distintos.

Em Ho Chi Minh, ela visitou lojas onde comprava seda em rolos, escolhendo pessoalmente entre texturas e padrões, antes de levar ao alfaiate. Duas mulheres mediam seu corpo: uma com a fita, outra anotando, criando o “mapa” de busto, cintura e quadril para construir seu áo sob medida. Thanhauser define a alfaiataria como um trabalho inteligente e íntimo, fazendo-a notar que, nos EUA, onde o acesso a alfaiates é raro, os consumidores estão desconectados da matéria-prima do seu áo.

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Above Processos de costura manual para um áo personalizado.

Porém, a uma curta viagem de Ho Chi Minh, existe uma realidade totalmente oposta do sistema de vestuário moderno.

Na Zona Industrial de Bien Hoa, Thanhauser visitou a Fashion Garments Limited, uma unidade de capital cingalês onde a designer Carol Malony trabalha. Malony produziu lingerie francesa para o mercado americano via Victoria’s Secret. Apos elevar os custos de produção, mudou a fabricação para o Paquistão e, finalmente, instalou-se em Ho Chi Minh. Em Bien Hoa, os designs de Malony garantiram grandes pedidos da H&M.

Nas linhas de montagem, via-se polos da Nike Golf, jaquetas da Under Armour e Victoria’s Secret PINK. Os trabalhadores costuravam peças com logotipos globais sob contratos de capacidade produtiva. Enquanto um lado permite ao comprador tocar a seda e entender o áo, o outro opera em uma cadeia global que separa designers de quem costura e de quem veste cada áo.


No final do livro, Thanhauser volta-se para a lã e redes locais de produção. Em Cumbria, ela visitou o Woolfest, celebrando a conservação de raças ovinas britânicas. Ela destaca a capacidade da lã de se decompor naturalmente e as vantagens de raças adaptadas a climas específicos.

O livro não romantiza o trabalho manual, mas ao retornar à lã, o leitor sente um prazer ancestral: a transformação da fibra, da mão e do tempo em um novo áo.

Talvez essa seja a maior virtude de um áo. Ele concentra natureza e esforço humano em um objeto leve o suficiente para nos acompanhar pelas ruas, salas e estações da vida.

Ao final, Thanhauser deixa uma reflexão: antes de ser moda, o áo já era uma proeza material que usamos tão cotidianamente que esquecemos de nos surpreender com ele.

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